Era quase meia-noite,
quando acordei.
As minhas mãos
agarravam ainda as mãos da minha mãe que ali na cama, sujeita a tantas dores
reumáticas, finalmente dormia também.
De que me lembro, ela contava-me as
histórias de quando era criança, em que esperava que o Menino Jesus me
trouxesse as prendas pelo Natal. Por muitos anos ainda pensava que as prendas
apareciam ali na árvore de Natal, oferecidas pelo Menino Jesus.
Tudo era tão mágico
nestes dias que antecediam o Natal. Não tínhamos televisão, e o que os nossos
pais nos diziam, era sagrado. Alguns dias antes do Natal, aparecia na sala da
nossa casa, uma grande árvore de Natal cuidadosamente enfeitada. Esta árvore
era o sinal de que o Natal se aproximava. A partir dali, pedíamos em nossas
orações ao Menino Jesus que tal e tal prenda nos trouxesse. Quando chegava a
noite de Natal, tínhamos de dormir porque senão as prendas não apareciam. E lá
íamos para a cama ansiosos pelo dia seguinte, em que o primeiro a acordar
acordava os outros. Ao fundo da árvore eu e meus irmãos encontrávamos várias
prendas que abríamos a correr.
Nem sempre o menino
Jesus nos dava o que pedíamos. Ficávamos um pouco chateados pois aquela prenda
que tanto queríamos não nos foi dada. E então a minha mãe em sua sabedoria
dizia-nos: - Se se portarem bem, para o próximo ano, o Menino Jesus dá-vos a
prenda que querem!
E assim vivíamos nesta idade
das luzes da esperança de que o bem é sempre retribuído.
Num dos Natais, um dos
meus colegas da escola, disse-me que as prendas não eram trazidas pelo Menino
Jesus, que quem as comprava eram os nossos pais. Fiquei desapontada com esta
grande mentira que os meus pais me andavam a dizer. Quando confrontei os meus
pais com esta descoberta, mesmo assim, nada os afetou. Eles, mais uma vez, em
sua sabedoria, souberam-me explicar: -Sim, somos nós que compramos as prendas para
vós. Mas pensem bem, se o Menino Jesus não der saúde aos vossos pais para
trabalharem, também não há dinheiro que possa comprar as prendas para vos dar.
Por isso, de qualquer maneira, é o Menino Jesus que vos traz as prendas.- E tudo
voltava a ter sentido.
Aprendi que a fé e a
esperança são os imprescindíveis companheiros da jornada da nossa vida. Nem
tudo pode ser racionalmente medido em dinheiro e materialmente avaliado em
utilidade.
O que afinal vale a pena,
o que se recebe ou o que se dá?
Fui ver o meu pai do
outro lado da cama se também dormia. A sua demência já não lhe permitia saber
que o dia seguinte era Natal. Na cabeça do meu pai, as memórias são o hoje e
agora. Dei-lhe um beijo na testa, e ao mesmo tempo, os sinos da igreja tocam a
anunciar a meia-noite.
Mais uma vez, a estrela
de Belém para diante deste presépio vivo, anunciando-me que nesta noite, já é Natal!
Autora: Rosária Grácio
Este conto de Natal faz
parte da Colectânea de Contos de Natal
“Natal em palavras”- Volume I - da Chiado Books.
O lançamento da obra
decorreu no dia 15 de Dezembro de 2018, Sábado, no Chiado Clube Literário em
Lisboa, pelas 15:00hs.
