quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O segredo da Belladonna





O segredo da Belladonna

Escondi-me neste sepulcro de terra, à espera das primeiras chuvas, do sol que o verão traz quente e menos húmido. Não posso subir esta terra sem que me mostre pronta para florir e dar a vida na terra dos viventes, dizer que estou aqui apesar de parecer morta durante todo o ano.

Quando Deus me fez assim silenciosa e obscura, queria ensinar em sua sabedoria que nem tudo que é bom e belo consegue-se perceber. Há coisas que só o tempo é capaz de dizer do seu valor, da sua importância e antes de tudo, da imensa generosidade
de Deus.

Deus dá a seu tempo o que precisamos porque sabe o que realmente necessitamos a cada etapa da nossa vida. Os humanos pensam ser como deuses, sabedores do que é certo e do que é errado, ousando redizer a história e fingindo ser mais sábios que a perfeita sabedoria de Deus.

Por mais racionais que sejam, os humanos veem apenas o presente, e por vezes ainda calculam tendo em conta o passado. Porém, Deus vê muito além do que se vislumbra na realidade vista e sentida.

Deus vê além das aparências humanas, e rasga o tempo como se fosse um só. E como Pai Justo e  amável, vê cada uma das suas criaturas com as suas reais necessidades, provendo conforme o que for realmente bom a cada um.

E então eis que no tempo certo, eu rasgo a terra e cresço, florindo em meio ao que ali existia, como se sempre estivesse ali, ocupando o meu lugar, em direção à luz, admirando quem me vê.

A surpresa que dou a mostrar-me, quando menos se esperava, no tempo certo e oportuno segundo a Vontade do meu Criador. Sou feliz e deixo que a minha beleza se expanda gratuitamente, em Ação de graças.

Sei que depois de florir e de completar o meu tempo voltarei a esconder-me na terra, resignando-me novamente à clausura onde aguardarei até o ano seguinte.

A vida está para além do visível. A paciência é o tempo de espera necessário para que possamos florir com todas as nossas forças, em plenitude pois tudo tem o seu tempo e momento.



“Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu” (Eclesiastes 3,1)

A Belladonna permanece dormente, escondida debaixo do solo durante o ano inteiro esperando o momento oportuno para dar a sua flor, aparecendo entre as outras plantas com toda a sua beleza. Depois de dar a flor, volta a esconder-se na terra até o ano seguinte.

Tem como nome científico “Amaryllis belladonna”, uma planta perene, bolbosa, da família das amarilidáceas cujas flores atrombetadas aparecem sazonalmente, logo após as primeiras chuvas depois da estiagem e antes das folhas. O bolbo permanece em dormente até a humidade no solo permitir o seu desenvolvimento.

A etimologia do nome genérico Amaryllis radica-se numa frase das Éclogas de Virgílio onde é usada a palavra grega αμαρυσσω (latinizada como amarysso), significando “para acender”, referindo-se a uma pastora.

“O segredo da Belladonna”
Texto de autoria de Rosária Grácio
Os pormenores sobre a Belladonna foram consultados em

Vídeo, fotos e Narração: Rosária Grácio

Música do vídeo: The Rising
YouTube Audio Library

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Ser pai



Ser pai!

Ser pai não é ser apenas o pai
de alguém.
Ser pai é ir mais além de uma
simples fecundação
pois quem é pai, dá de si por
inteiro, sem exceção
por quem é filho, mesmo que
não o seja por definição.
Quem é pai, tem braços fortes
no furor da tempestade
Tem as palavras certas nos
momentos da tristeza e dor
O amor de pai escreve-se com
coragem e tenacidade
Ser pai é não se deixar vencer
pela idade ou falta de vigor.
Os anos passam, mas um pai
nunca esquece os seus filhos
E ao ver os netos, ser ainda
mais pai e tornar-se avô.
Pois sua missão de pai não
acaba com os seus filhos crescidos.
Quem lê estas linhas poderá
pensar que já não há pais assim
E que nestes tempos, o amor de
pai já não se vê como antes
Mas se conhecesses o meu pai,
ah, … verias que há sim
Homens que são pais e mais
pais, nestes tempos que antigamente.
Ah, se conhecesses o meu pai,
o que dele aprendi para o hoje que sou
Compreenderias que dele não me
ficou só o seu sangue nas veias
Nestes parcos versos, seria
impossível falar de ti, meu pai amado
de quando os seus olhos
fecharam, e nos meus, quantas lágrimas verteram…
Perder um pai como fostes dá
uma saudade com tanta dor sem palavras
Sem ti fisicamente, resta-me
lembrar do quanto me ensinastes…
As ondas do mar da vida são,
por vezes cruéis e prontas a te afogarem
Porém, não tenhas medo, vê o
horizonte do possível e segue em frente
A vida se faz a andar,
deixando para trás toda a areia do receio …
(Poema de autoria de Rosária Grácio)

“Ser Pai”

Poema de homenagem póstuma ao meu pai, falecido a 09/07/2019

Este poema foi um dos poemas seleccionados para fazer parte do Volume XI da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Entre o Sono e o Sonho!