Há cerca de
cinquenta e quatro anos, num hospital, uma mulher de nome Laura perguntava a uma enfermeira se já era a hora de dar a luz o filho que trazia no seu ventre. Esta
mulher, apesar dos comuns sintomas que toda a mulher tinha e tem no parto, não
era de gritar e nem de se queixar, apesar das suas dores.
Foi assim, sem gritos ou berros que deu a luz ao seu primeiro filho, o Carlos, em casa, sem quaisquer complicações,
apenas com a ajuda de uma parteira, se é que se pode chamar assim, quando
naquele tempo, as gentes assumiam uma habilidade natural para fazer isso ou
aquilo, cuja sabedoria não provinha de uma faculdade e nem de um curso técnico.
Mas esta segunda gravidez
era um pouco diferente, era de risco, disseram os médicos, e por isso, num
hospital particular e com todos os especialistas técnicos era mais seguro à
Laura ter o seu segundo filho.
Na altura não se
sabia ainda se era menino ou menina porque isto de ecografias para se ver o
sexo biológico, como agora se diz, não existia. Crendices à parte, na altura, as mulheres tinham sempre forma de
saber se era menino ou menino, e a Laura, já tinha um palpite: desta vez era
menina. Já tinha feito as roupinhas, e pelo sim ou pelo não, roupinhas de cor
verde ou branquinha, não fosse vir um menino e julgar-se ser uma menina. As
cores traduziam assim esta perspetiva materna de desejar o que no seu ventre
era tecido lentamente…
Isto de aguardar
nove meses por uma criança que estava no seu ventre era um processo de espera,
preparado ao pormenor, pois vinha um novo ser à vida, uma criança, meu filho ou
minha filha, sempre queridos e desejados.
Laura, enquanto
gestava dentro de si uma vida, preparava ternamente durante aquela espera, as roupinhas
dos seus bebés. Isso de comprar tudo feito nos shoppings nem se podia e nem havia.
Até mesmo as fraldas eram compradas ao metro e cortadas à medida. Eram nove meses
de muita preparação, e aproximando-se os dias, preparava-se uma malinha com as
primeiras roupinhas e fraldas do bebé, para que tudo estivesse pronto no dia do
nascimento ou se fosse necessário, levar-se ao hospital.
E no hospital, a
Laura já pressentia que era hora de dar à luz. Dentro de si, sentia que a vida
se remexia para sair de dentro dela, e que não importava os pareceres técnicos,
se dentro dela, a cisma de mãe tinha a força da natureza a dizer-lhe: -é agora!
A enfermeira
dizia que ainda não era hora, afinal se ainda não grita de dores, há de ser a
hora, porquê? Nos livros técnicos, deseja-se a uniformidade, pois a complexidade
do ser humano é muita bagagem que só o tempo e a experiência são capazes de
ensinar os senhores doutores.
Entretanto, o
tempo passava e Laura sabia que já era hora. A natureza das coisas
vivas tem o seu momento para nascer e morrer. O relógio biológico dita o tempo,
e não há dinheiro que pague para o atrasar ou adiantar. Podemos amenizar a dor,
salvaguardar isto ou aquilo, mas esta hora de nascer e de morrer, quer
queiramos ou não, não está ainda disponível como um botão que liga e desliga, e
já está.
Por isso, a perspicaz Laura
não se preocupou com a sabedoria humana e virou-se para a sabedoria de Deus. Colocou-se
em posição de parto e após alguns puxos deu-me a luz, ali mesmo, onde estava,
sem esperar que a enfermeira viesse com as luvas ver se já era a hora de nascer
ou não.
E assim saí de
dentro de minha mãe… não chorei, não gritei, estava ali, roxa e estendida…
Ao
ver-me assim como morta, minha mãe faz esta oração:
- "Meu Deus, se minha
filha sobreviver, a madrinha de batismo será tua Mãe, Nossa Senhora de Fátima."
E então há um
rebuliço no hospital. A enfermeira agarra em mim pelos pés e dá-me umas
palmadas… e só assim, finalmente chorei…
Quem nasce e não
chora, não sobrevive… pois este chorar ao nascer é um abrir da vida para um
mundo novo fora do conforto líquido no ventre da mãe.
Foi assim que a
minha mãe me deu o nome de Rosária de Fátima em ação de graças a Nossa Senhora
de Fátima.
Desde o dia do
meu nascimento, e tenho certeza que mesmo desde o meu primeiro segundo no ventre
da minha mãe, Deus já me tecia como ser humano único e imprescindível para Ele
e sua Mãe Maria Santíssima.
Não importa a
sabedoria humana, se a sabedoria de Deus vê muito mais longe que números de
identidade.
Deus vê seres humanos, cada qual com seus dons e missão. Cada um
deles não é descartável, nem dependente para nascer, das condições mínimas necessárias de
sobrevivência como agora se diz.
Quando eu fui
gerada, minha mãe disse que não fui planeada. Um casal jovem, em terras
estrangeiras e longe da família só podia contar com o seu amor mútuo e a providência
de Deus. Se calhar, para além disso, será que mais importa?
E assim, com toda
a alegria e com um vestido lindo que na altura se usava nas crianças quando se
batizavam, fui acolhida na Igreja católica.
E a foto com os meus padrinhos da
terra, junto aos meus pais e irmão mais novo foi tirada na igreja onde me batizei, junto ao altar de Nossa
Senhora de Fátima, a minha madrinha do céu, em memória de um milagre, o grande
milagre da vida, esta vida que nunca vem por acaso, mesmo que pensemos ser mais
uma criança que vem ao mundo…
Há cinquenta e quatro anos, esta criança, um dia fui eu, noutro dia foste tu,
e quem aqui nesta vida, veio, nem que seja por um instante, já contou e fez
história.
A cada um de nós, Deus nos faz únicos em personalidade e dons
recebidos, e nestes tempos de tantos medos da vida e do futuro, se calhar é preciso que haja quem como minha mãe, não se fie em vontades humanas,
mas na vontade de Deus.

