sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O chip com prazo de validade e o pacote de amendoins



Nesta semana, ao validar um título de transporte público, deparei-me com a seguinte mensagem: “Título inválido”.

Infelizmente os títulos de transporte de Metro aqui no Porto tem um prazo de validade: 1 ano. Mesmo que os títulos estejam em perfeitas condições, não adianta nada cuidar deles pois ao fim de um ano, eles “morrem”, restando-lhes apenas um destino: a lixeira.

Nunca percebi bem porque um título recarregável em perfeitas condições tem de ser jogado no lixo simplesmente porque o chip está programado para findar ao fim de um ano.

Há cerca de uns anos atrás estes mesmo títulos de transportes duravam por anos, sempre prontos a carregar, quando fossem necessários para serem utilizados. Eu tinha vários deles em minha casa, e quando algum familiar precisava utilizar os transportes públicos, cedia o tal “título de transporte” para que fosse reutilizado conforme as necessidades.

Porém, há cerca de uns anos atrás, a empresa de transportes mudou a sua política e resolveu dar aos títulos de transporte um prazo de validade e o chip neles contido é fiel aos prazos e ao cabo de um ano, “morre”. Assim, ao fim de um ano, sendo pouco ou muito utilizado, só resta uma coisa a fazer:  rasgar o título de transporte mesmo que visivelmente em bom estado e comprar outro por 60 cêntimos a cada ano.

Quando coloquei esta situação diante do balcão de atendimento da empresa, foi-me colocada a teoria da reciclagem, que assim se gastava menos e o material era reciclado. Antigamente, emitia-se bilhetes a cada viagem e jogavam-se fora, mas agora pode-se, durante um ano usar o mesmo título e usa-lo. 

Mas a minha questão é porque ele tem de ser mudado a cada ano se está em perfeita condições? 

Eu até poderia compreender se o título estivesse degradado pelo uso e ser realmente necessário substituí-lo. Mas se o título de transporte está visivelmente em bom estado porque tenho de o rasgar e coloca-lo no lixo só porque o chip tem a validade de um ano? 

Desculpem-me, mas Isso nada tem a haver com reciclagem ou com amor ao meio ambiente, mas finjo que acredito.

Reciclagem e amor ao ambiente a sério, é o pacote de amendoins de antigamente.

Sim, há cerca de uns trinta anos atrás, não havia quem falasse em reciclagem e em defesa do meio ambiente, mas penso que nessa altura é que sabia o peso destas palavras.
E isso apenas usando um simples caso: o pacote de amendoins.

Nesse tempo, havia quem vendesse amendoim torrado pelas ruas e isso era realmente um assunto bem ecológico e ai de quem não fosse amigo do ambiente.

Quem comprasse um pacote de amendoins torrados, primeiro tinha de decidir uma coisa: se queria um pacote pequeno, médio ou grande e o preço dependia dessa opção. Naquela altura, comer o necessário era imperativo pois o desperdício não cabia nos bolsos onde havia tostões. O que se comprava tinha de ser comido e nada de andar-se aí a espalhar pelo chão ou jogar no lixo o que já não nos apetece. Antes de escolher, tinha de se ver o que se queria comer e quanto se ia comer, pois a comida não caía do céu.

A quantidade dos amendoins selecionada era colocada num cartucho de papel mata-borrão. Este papel resistente e absorvente, albergava os amendoins torrados e ainda quentinhos.

Mas o cuidado do meio ambiente era algo que se fazia naturalmente pois se há amendoins, há cascas e o chão da rua não é lixeira. Por isso, o vendedor de amendoins dava também um outro cartucho de papel, e este estava vazio para ser aí colocadas as cascas dos amendoins que iam sendo comidos.

Ai de quem deixasse cair cascas pelo chão, não fosse um familiar ou vizinho dizer que tinhas deixado cair alguma casca de amendoim, pois todas tinham de ser colocadas no cartucho de papel vazio que tinhas recebido do vendedor ambulante.

E depois de comidos os amendoins, os pacotes de papel eram colocados no lixo? Há que reciclar a sério pois amor ao ambiente é reutilizar e não desperdiçar. Por isso, jogava-se na lixeira as cascas de amendoim e trazia-se para casa os dois pacotes de papel já vazios.

Em casa, estes dois pacotes eram desfeitos e meticulosamente guardados pois nessa altura, a reciclagem e o amor ao ambiente era um imperativo.

Cada uma dessas folhas de papel borrão que antes albergara os amendoins agora estavam disponíveis para servir de papel absorvente na cozinha.

E como o papel era grosso e resistente, poderia ser utilizado de um lado e depois do outro e nem se compara com os papeis absorventes dos rolos de cozinha de agora que usa-se uma vez e joga-se fora. 

O papel ficava ao sol depois de usado uma vez, para dar mais que uma utilização, até finalmente ser jogado fora após estar realmente cheio do óleo ou azeite da fritura dos carapaus fritos, iscas ou pasteis de bacalhau caseiros que em casa se faziam.

E assim, um simples pacote de amendoim, numa altura em que pouco se falava de reciclagem ou meio ambiente ensina-me que isto de “chips” determinarem a validade é realmente questionável, e finjo que acredito nestes argumentos da “reciclagem” e do cuidado do ambiente que hoje geram tantas desculpas como esta de se pagar mais 60 cêntimos a cada ano por um pedaço de cartolina modernizado com chip.