domingo, 3 de maio de 2020

Nascer é um milagre. Viver é um milagre.



Quando nasci, estava sem ar, já morta. 

Na cama do hospital, minha mãe ali estava em posição de parto, a ver-me ali deitada, ainda encharcada com o sangue das dores do nascimento. 

Estava parada, silenciosa, não chorava, não me mexia…

Laura, minha mãe é que chorava, porque parecia ver a sua filha que mal tinha nascido, já estava morta. 

Tantas dores padeceu e a mãe vê que o ser que albergou em seu ventre, por nove meses, sair assim, sem vida…

Laura nunca gritou a ter os filhos. Eu já era o segundo ser que do seu ventre nascia, e portanto, ela já bem conhecia como era ter-se os filhos.

O seu primeiro filho foi dado à luz pelas mãos de uma parteira, em casa.

As suas vizinhas não se acreditavam que ela não iria gritar quando a sua hora chegasse. E acompanhada pela parteira, pouco a pouco, o meu irmão Carlos veio ao mundo. E as vizinhas, do lado de fora, que esperavam ouvir quaisquer gritos, apenas ouviram o choro do meu irmão que nascia.

- Ela bem disse que não chorava – ainda murmuraram as vizinhas, com os ouvidos encostados à parede do quarto que dava para o corredor do prédio onde elas se amontoavam à espera daqueles desesperos de grávida de primeira viagem.
Porém, passados  cerca de três anos, a minha mãe, agora ali estava no hospital, por recomendação médica, porque a minha gravidez era de risco. Estávamos numa casa de saúde particular, com todos os cuidados que de melhor haviam na época, em Angola.

Minha mãe bem disse às enfermeiras que a hora do meu nascimento já estava próxima… que ela não era de gritar a ter os filhos… que eu já me remexia dentro dela pois sentia-me sufocar por lá estar para além do necessário…

Chamou a enfermeira várias vezes, mas o olhar desta, mostrava incredulidade, pelo facto da minha mãe não estar ali a gritar, como habitualmente faziam as outras mulheres que lá iam ter os filhos.

Minha mãe sentia as dores das contrações, como todas as mulheres, e para aguenta-las, quando ainda estava em casa, dava umas tantas voltas à mesa da sala de jantar, enquanto aguardava o momento do nascimento.

Minha mãe Laura, mulher forte e corajosa, deixou os pais em Portugal com poucos meses de casada para ir ter com o marido que em Angola trabalhava, ainda em plena guerra colonial.

Esta mulher firme foi construída pela vida dura do seu tempo, que desde criança já tinha obrigações a fazer na casa dos pais, num tempo em que os filhos, desde pequenos, acostumavam-se a lidar com as responsabilidades e os contratempos da vida.

Na família aprendia-se que a vida é uma constante luta não apenas pela sobrevivência mas antes, e em primeiro lugar, era  ali na família que se sabia e se contava com a proteção de quem realmente nos ama e nos defende nas tempestades que um dia surgirão. 

Na família, os filhos são uma benção, uma nova vida que do corpo da mulher, fazem-se mãe e pai, para sempre.

As dores de um parto não eram, para a minha mãe, tão imensas que não conseguisse suportar. Talvez a sua constituição física também a ajudasse, pois nem todas as mulheres têm filhos sem complicações.

Minha mãe dizia que a cada novo filho, o seu corpo rejuvenescia em saúde e força.

Mas isso de uma mulher ter um filho e não gritar, as enfermeiras não se fiavam. Ainda não está na hora, diziam elas. E o tempo foi passando…

As dores das contrações não a afligiam, até que sentiu, sim, que eu já morria dentro do seu ventre.

E uma mãe atenta sente o que sente o seu filho, já desde o seu ventre. E já o mal-estar de morte envolvia a minha mãe, porque eu já morria em seu ventre.

Ah, a minha mãe havia de me colocar cá fora, nem que fosse sem a ajuda de ninguém. Ainda deu um grito a chamar alguém.

E lá veio a enfermeira, a rir-se e a abanar a cabeça, ainda a teimar que não era a hora do meu nascimento.

Enquanto isso, a minha mãe agarra-se às suas pernas, em posição de parto, e faz a força que já sabia que deveria fazer para me jogar para fora do seu corpo.

Ainda a enfermeira calçava as luvas para ver a dilatação, o que já tinha feito tantas vezes naquela noite, quando a minha mãe me empurrou, agarrada à cama, para que viesse cá para fora. 

Após alguns puxos, eis que eu saio e vou para fora. E assim fui empurrada à luz deste mundo terreno, já sem forças, roxa, imóvel.

Minha mãe ao ver-me como que já morta e toda ensanguentada, logo grita:
- Se a minha filha morrer, processo este hospital!

Mas dentro do seu coração materno, nenhum processo iria trazer a sua filha de volta. Enquanto a enfermeira me agarrava pelas pernas, ela faz uma promessa:

- Se minha filha sobreviver, Nossa Senhora de Fátima será a sua madrinha de batismo.

A enfermeira agarra-me pelos pés e dá-me umas palmadas… Meu corpo estremeceu, senti o ar voltar aos meus pulmões, chorei…

Choro ainda mais porque ali, por mãos estranhas, sou limpa do sangue… 

Aos poucos a cor da vida, rosada, lentamente invade todo o meu corpo. Estava viva!

Assim, nasci para este mundo, a partir da dor, por um caminho entre a morte e a vida, por um fio fraco de esperança. 

Abri os olhos numa madrugada de novembro, pelas três horas da manhã!

Neste primeiro dia, vivi o meu primeiro milagre da minha vida. Aliás, vivi dois milagres. O primeiro foi ter passado pelo milagre do nascimento. O outro foi por já ter morrido, e logo depois ter revivido.

Passados anos, a minha mãe irá me contar, vezes sem conta, o que na altura ocorreu.

De nada valia, se estava num dos melhores hospitais que na altura havia por ali, pois isso de amparo da ciência ou técnica humana é mais uma daquelas questões com que me iria debater durante toda a minha vida.

Nos braços da minha mãe, já mamava com todas as minhas forças. Parecia que os sustos já se haviam dissipado, mas não.
Passados alguns meses, já andava de médico em médico por causa de chorar muito. Chorava e chorava, tinha febre e algo se passava comigo. Eu agarrava as minhas orelhas de dor, mas não conseguia dizer onde a tal dor estava.

- Deve ser do leite, - disse um médico à minha mãe.  – É melhor dar-lhe outro leite pois o seu leite deve ser muito forte para ela.

Mas eu não gostava de outro leite que não fosse o leite da minha mãe. A natureza sempre foi sábia em sua simplicidade de dar o correto nas horas devidas. Nós, seres humanos temos, por vezes, esta vontade de inventar, desfazer e refazer uma nova natureza sobre a que já existe.

Por vários dias chorei, com febre e ainda mais com fome, porque não gostava de outro leite que não fosse o da minha mãe.

Parecia que piorava de dia para dia. Eu gritava e assim dizia na minha linguagem de bebé onde me doía, mas ninguém me percebia.

Sempre há quem indique um especialista. Mais um médico que talvez desse uma melhor opinião.
Meus pais nunca foram de baixar os braços, e por isso, lá foram a uma tal clínica privada que uns amigos indicaram, para ver se descobriam o que eu tinha.

Porém, chorava sem parar. 

Para não importunar as outras mães e crianças que lá estavam, a aguardar a consulta, a minha mãe para me calar, deu-me o peito para mamar. Se tivesse que morrer, pelo menos morria satisfeita!

E eu, esfomeada como estava, começo a beber aquele leite materno que me sabia tão bem.

Mamei, mamei, até me fartar. 

Estava esfomeada, e assim mamei até me cansar! Exausta, por fim, enfartada, deixei-me cair num sono profundo nos braços da minha mãe, quase morta…

Já no consultório do médico, este mais sábio, indignou-se por terem dito à minha mãe que o leite materno me faria mal.

O leite materno é um dos melhores antibióticos naturais que um bebé poderá tomar nos seus primeiros anos de vida. E isto de leite de vaca ser melhor que o leite materno, de onde tiraram tal parvoíce?

Feitos alguns exames como deve ser, lá se foi diagnosticado o que tinha. Uma otite já em estado tão avançado que o médico disse logo à minha mãe:

- Se a febre não parar em 48 horas, com os remédios que lhe vou receitar, o caso da sua filha está perdido.

Sim, mais uma vez, uma sentença de morte estava destinada para mim.

Já no colo da minha mãe, satisfeita por ter finalmente sido alimentada, como deve ser uma bebê, ali estava com uma febre proveniente de uma inflamação grave nos ouvidos.

Porém, venci, mais uma vez, as previsões médicas e científicas. Sobrevivi.

A vida vem de Deus e a ciência humana é um dom de Deus. Há que persistir e nunca desistir! Quando se ama, a vida de quem amamos está em primeiro lugar! 

De resto, que nos deiam sentenças de morte e previsões científicas bem fundamentadas. O ser humano não é Deus, e quando se acha melhor que Deus, infelizmente bate com a cabeça num grande muro: a sua incapacidade para explicar os milagres que Deus nos concede todos os dias, uns grandes, outros quase imperceptíveis. 

O passar do tempo nos faz reconhecer estes milagres se estivermos atentos ao que nos acontece ao longo dos anos. Um desses milagres, eu diria, graça especial, é ter uma mãe que nos ama incondicionalmente. 

E eu fui duplamente privilegiada no meu nascimento. Para além da minha mãe da terra, fui também dada em adoção à Mãe de Deus e a partir daquele mês de novembro de 1965, nasci, tendo uma mãe na terra e outra no céu…

Obrigada minha mãe Laura, e meu pai Antonio, sempre presentes, ensinando-nos que não há que ter medo da vida, mesmo que a morte pareça bater a porta ... As sentenças médicas não devem minar a nossa vontade de sobreviver e defender quem mais amamos.
Obrigada, minha Mãe Santíssima por me levar pela sua mão desde a promessa da minha mãe, tendo-Te como madrinha para toda a minha vida, material e espiritual.

Salve Maria!




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